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2010/07/19

Morre lentamente quem não viaja...

Por: Rui Viegas Gago

Em época de férias ou, de preparação de férias, de viagens, passeios ou apenas de voltinhas pelo quintal acho que vale a pena ler...

Morre lentamente, por Pablo Neruda

Quem morre?

Morre lentamente
quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajetos, quem não muda de marca
Não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente
quem faz da televisão o seu guru.

Morre lentamente
quem evita uma paixão,
quem prefere o preto no branco
e os pingos sobre os "is" em detrimento de um redemoinho de emoções,
justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
sorrisos dos bocejos,
corações aos tropeços e sentimentos.

Morre lentamente
quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida,
fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente
quem não viaja,
quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.

Morre lentamente
quem destrói o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente,
quem passa os dias queixando-se da sua má sorte
ou da chuva incessante.

Morre lentamente,
quem abandona um projeto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece
ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves,
recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior
que o simples fato de respirar. Somente a perseverança fará com que conquistemos
um estágio esplêndido de felicidade.

2010/03/09

Dicas para planear uma viagem de moto

Por: Jorge Lami Leal



Um dos prazeres que sinto nas viagens de moto está intrinsecamente ligado à sensação de liberdade que tenho de parar, de partir, de continuar por mais uns quilómetros – se me apetecer – ou encostar algures e pernoitar num qualquer lugar que, ao passar, fez sentir que teria de ser por ali mesmo.

Os elementos (como a chuva, o frio ou o calor) estão à nossa volta, fazem a viagem connosco e são tantas vezes companheiros por muitas centenas de quilómetros. Quem nunca experimentou “rolar” à chuva durante horas, mantendo o prazer, nunca perceberá exactamente o que é andar de moto. Existe uma frase (desconheço o autor) que refere qualquer coisa como “só um motociclista entende porque os cães gostam de viajar com a cabeça fora da janela do carro”. Não se explica… sente-se!!

Uma viagem pode correr bem ou mal, ou algures no meio disto. Muitas variáveis contribuem para tal. Algumas delas não controlamos. Podemos todavia prever a probabilidade de ocorrerem. O planeamento é pois uma ferramenta que permite não só antecipar problemas, como prepararmo-nos para eles.
Feita esta pequena introdução, gostaria de partilhar convosco algumas regras e ferramentas que utilizo, no fundo algumas dicas que podem ser úteis e que resultam das várias viagens que tenho feito, mas também de vários contributos que vou recebendo e melhorando também por essa via o meu método de organizar uma viagem.

Existem componentes a ter em conta no planeamento: (1) o tempo máximo disponível, (2) o limite de valor que pretendemos gastar e a (3) distância a percorrer (onde se inclui os países ou as localidades que queremos visitar). Estes factores contribuem para o sucesso do “projecto”. Se não vejamos:

- Partindo do princípio que os recursos financeiros não são ilimitados, o tecto definido deve permitir pagar o alojamento, as refeições, o combustível, as portagens (se tiver mesmo, mesmo que ser), etc., durante os dias que dispomos para a viagem. Menos recursos implicam menos dias, menor distância, ou uma gestão equilibrada de ambos, assim como dos gastos ao longo dos dias.


É esta elasticidade que deve ser atempadamente estudada, com uma margem de tolerância para eventualidades. Estar sempre preparado foi um conselho transmitido por um amigo, com quem fiz os primeiros quilómetros de moto e está sempre presente.

O planeamento favorece a sorte!


Por uma questão de arrumação, divido o planeamento em 3 partes:


a) Planeamento financeiro;
b) Planeamento do percurso;
c) Planeamento operacional.



a) Planeamento financeiro


Julgo que será equilibrado estabelecer que para fazer uma viagem de moto, qualquer que seja a distância a percorrer, para um casal (e a moto, claro) devemos contar com a disponibilidade financeira de pelo menos um mínimo de 150,00€/ dia. Isto dentro dos parâmetros que de seguida desenvolvo.


Um hotel com as condições mínimas (pode ser importante garantir que tem garagem privada, por questões de segurança) custa, por noite, entre os 50 e os 80,00€ (3 e mesmo 4 estrelas, se marcado com alguma antecedência, se bem que existe mais oferta, como o turismo rural e de habitação, ou mesmo os B&B, que podem ser bons compromissos qualidade/ preço e agradáveis alternativas, que permitem conhecer ainda melhor a realidade de onde andamos). Estes valores dependem de país para país, da localização (se é numa cidade mais importante, com preços mais elevados, ou mais rural, com preços, para o mesmo nível de qualidade, inferiores), difere também em função da altura do ano (especialmente no litoral, durante os meses de Verão e, no Inverno, nas regiões onde existam estâncias de neve). Até a antecedência com que se fazem as reservas tem implicações directas no preço a pagar (apesar de raramente o fazer nas minhas viagens… começo a pensar que é uma boa ideia começar a fazê-lo).

Não esquecer que podemos viajar e ficar alojados em hotéis de topo, mas para dormir e seguir viagem, considerando que a maioria das pessoas tem um orçamento a gerir, acho boa ideia canalizar o diferencial de valor de um hotel mais caro, para outras despesas. Vamos então partir do princípio que a média destes será um valor razoavelmente correcto. Chegamos assim a 65,00€/ noite, acrescendo cerca de 6,00€ a 12,00€ para o estacionamento privativo (se viajarmos com mais motos, normalmente é possível colocar duas ou mesmo três num mesmo espaço e dividir este valor pelo número de motos que ocupam o espaço.

O preço das refeições é sempre uma incógnita. Depende muito do país em que estamos, do que queremos experimentar da gastronomia local, especialmente dos vinhos que queremos provar. Essencialmente depende do que se espera de uma viagem de moto. Para mim, que gosto de comer, prefiro fazer almoços ligeiros, jantares mais calmos, mas sem grandes abusos, reservando alguns jantares melhores. Incluindo algum snack ao longo do dia, chegamos facilmente a valores mínimos de 55,00€/ dia (por casal). Se apontarmos para uma média de 500 km percorridos por dia, mais 30,00€/ dia para combustível (depende também do país, já que alguns têm uma incidência fiscal sobre os produtos petrolíferos maior ou menor, o que se reflecte no preço final a pagar pela gasolina), ultrapassamos facilmente os 150,00€ por dia.

Para além do dinheiro para a viagem, é importante que possamos dispor de um “fundo de segurança” associado a uma conta bancária diferente da habitual (com um cartão, preferencialmente de débito, diferente daquele que usamos para as despesas correntes). Neste “fundo” é importante não contar com cartões de crédito, mas com dinheiro do outro lado da linha de comunicações interbancária! Por vezes pode não ser fácil usar um cartão de crédito, especialmente em determinados países. Este dinheiro é uma espécie de seguro, no caso da qualidade dos “vinhos” que bebermos ao jantar, depois de 1.000 km a andar de moto… algum abuso num ou noutro restaurante… ou mesmo porque o azar nos bateu à porta e fomos forçados a fazer uma paragem para uma reparação mais cara, etc.

b) Planeamento do percurso


Juntamente com o planeamento anterior (financeiro) está o “onde queremos ir”. Esta decisão pode ser melhor apoiada e estudada utilizando ferramentas como o Google Maps e o MapSource, facilmente podemos traduzir em quilómetros os locais que queremos visitar e se estão dentro do nosso limite de dias para a viagem.


Acho razoável partir do pressuposto que não devemos fazer viagens de moto com tiradas acima dos 800 km/ dia (até 1.000 ou 1.200 no limite, se as estradas permitirem velocidades relativamente mais elevadas). O ideal será manter um ritmo maior nos primeiros dois ou três dias, que permitam fazer grande parte dos quilómetros. Depois, andar na casa dos 300 km por dia. Um bom princípio é fazer os quilómetros no período da manhã e utilizar o almoço para recuperar energias e descansar um pouco, reservando a tarde para conhecer e usufruir o destino, com a moto estacionada na garagem do hotel, quando possível, e caminhar ou usar transportes públicos. Caminhar é muito importante, pois o exercício físico compensa o tempo que estamos em cima da moto. É o que tento fazer. Fica-se a conhecer bem melhor as cidades para onde vamos.

Uma dica é utilizar os autocarros de “city tour” no primeiro dia, sempre que existam. Dão-nos uma boa visão global dos pontos mais importantes, normalmente com áudio interpretativo do que estamos a ver/ passar, com a vantagem extra dos bilhetes poderem ser normalmente utilizados ao longo das 24 horas seguintes, permitindo entrar e sair sem adquirir outro, evitando mais custos de transporte (pelo menos nessas 24 horas). Mas sobretudo porque as rotas estão desenhadas para passar nas principais atracções.

Utilizo uma folha de cálculo (Excel), que construí e parametrizei para melhor gerir esta componente da viagem. Posso partilhar convosco, para isso, caso estejam interessados, basta enviar um e-mail a solicitá-lo para aqui.

Para reservar o alojamento, o “Booking.com” é uma boa solução. Permite adequar o alojamento ao trajecto, em função do tecto financeiro planeado, com a possibilidade de desistência, pela Internet, desde que com a antecedência mínima de 24 horas. Se nos atrasarmos num local, podemos sempre refazer as reservas, de forma cómoda e eficiente.


c) Planeamento operacional


Esta parte, no meu caso, é relativamente simples, apesar de incrivelmente detalhado. Como é que faço? Nada mais, nada menos do que conferir uma check-list (posso partilhar este ficheiro também, usando o e-mail indicado em cima). Sempre que exista no mercado, utilizo acessórios específicos para viagem, mais pequenos e adaptados ao pouco espaço disponível.

Em relação à roupa, a regra é: “menos é mais”! Levar menos implica lavar mais, mas pelo menos não exageramos na quantidade. Normalmente tenho três ou quatro mudas, um deles fica como SOS e o resto vou lavando todas as noites, quando chego ao hotel. Se for necessário (Inverno), utilizo o secador de cabelo ou o aquecedor do quarto de hotel para secar a roupa. Levo obviamente detergente. Numa viagem de fim-de-semana levo praticamente a mesma roupa que numa grande viagem, com os pequenos ajustes necessários.


Como o espaço é pouco, devemos reflectir sempre se necessitamos mesmo de tudo. Um truque pode ser organizar tudo em cima de uma cama, depois, ao arrumar, pensar se será mesmo necessário levar cada um dos itens. Por vezes não é. Se revelar-se necessário, compra-se algures ou quando chegarmos ao destino.



Algumas dicas extra


- A moto deve ser, tanto quanto possível, adaptada à viagem. Uma moto touring, com malas laterais e uma topcase é a ideal. Mas existem no mercado, para além do equipamento de origem, diversas empresas que fabricam especificamente material para vários modelos. Pessoalmente gosto da Touratech pela variedade de referências que “oferece” e pela perfeita adaptação às motos e às nossas necessidades;

- Se levar pendura, um truque é dividir as malas, uma para cada pessoa. No fim, garantir que o peso está equilibrado. Costumo pesá-las numa balança de casa de banho, para não existir grande diferença de peso, a existir, deve-se trocar algumas coisas de um lado para o outro, até ficar devidamente equilibrado;

- A topcase é utilizada apenas para equipamento fotográfico, luvas extra, etc.; caso seja necessário, numa paragem arrumo lá dentro os capacetes e as luvas e carrego o conteúdo da topcase às costas, dentro de uma mochila (que também evita que as coisas andem espalhadas na topcase). Facilita nos passeios e visitas que fizermos ao longo dos percursos, antes de chegar ao hotel, evitando o desconforto de carregar o capacete ao ombro;

- Levar pequenos frascos de plástico para colocar champô, gel de duche líquido para lavar roupa, caso não se disponha de produtos específicos para viagem. Nunca conto com os produtos do hotel, prefiro os meus;

- Separar o dinheiro em lotes e distribuir pela bagagem e casacos; usar cartão de débito ou de crédito sempre que possível, reservando o dinheiro apenas em última recurso e ter sempre pelo menos uns 100,00€ escondidos – caso seja necessário, por exemplo, parar e comer num local isolado, que não disponha de meios de pagamento electrónicos, ou atestar o depósito num local que, por qualquer motivo, não tenha esta funcionalidade disponível num dado momento (já me aconteceu);

- Levar números de contacto 24H dos bancos (para o caso de ser necessário cancelar algum cartão por roubo, extravio ou qualquer outro motivo);


- Nunca deixar que o cartão bancário saia da nossa presença ou visão;

- Devemos garantir que a próxima manutenção da moto fica além dos quilómetros que nos propomos percorrer. Ainda assim, não é má ideia uma visita preventiva ao concessionário/ oficina, ou mesmo verificar em casa o óleo, atestando-o, se necessário. Pessoalmente, desde que a moto não supere os quilómetros da revisão, nem me preocupo com isso. Há quem leve ¼ litro de óleo, para uma eventualidade (caso as especificações do óleo sejam pouco comuns). Em todo o caso, levar uma lista (com morada e contacto telefónico) dos concessionários da marca ao longo do trajecto pode não ser má ideia;


- Os pneus são a nossa segurança. Devem estar em boas condições e aptos para ir… e voltar. A pressão dos mesmos (sempre tirada a "frio") deve ser mantida nos valores correctos, corrigidos para o peso/ número de ocupantes, temperatura ambiente, terreno, etc.;


- Levar os números de telemóvel principais com o “+351” inserido. Facilita os contactos. É uma boa política pedir a um amigo ou familiar que seja o contacto SOS durante a viagem. Mantendo-o informado por SMS de onde está;

- Vivemos um mundo cheio de tecnologias de informação, mas nunca confiar exageradamente no telemóvel. Levar uma lista de contactos telefónicos de familiares e amigos (plastificada por causa da água) num bolso do blusão, para a eventualidade de perder ou partir o telemóvel e necessitar de os contactar. Em caso de acidente, a equipa de emergência terá acesso a essa informação;


- Respeitar sempre os usos e costumes dos países por onde passamos, sobretudo em África e países árabes. Para isso, é conveniente estudá-los previamente, ler antecipadamente algumas tradições e informação neste âmbito;

- A pendura deve levar uma chave extra (da moto), para o caso de perdermos a nossa (ou em resultado de furto/ roubo) - se viajarmos sozinhos, mas com outra moto, trocar com o companheiro de viagem as respectivas chave extra;

- Preparar o roteiro cultural e outros locais de interesse e descarregar os waypoints no GPS facilita chegar até eles, mesmo que estejamos a pé;

- Levar uma lista de hotéis alternativos (com contactos) nas zonas de passagem e destino, se o GPS tiver esta informação disponível, não será necessário (já me aconteceu estar cansado, no meio de nada e simplesmente procurei no GPS o hotel mais próximo… em poucos minutos estava de banho tomado a dormir o descanso dos justos!!);

- Levar endereços e telefones de emergência (o número europeu de emergência é o 112, em qualquer das redes, fixa ou móvel, nos outros países, convém pesquisar previamente);

- Levar cópia dos documentos e cartões, caso seja necessário cancelar algum (uma sugestão de um dos meus companheiros de blog é fazer upload da informação para a caixa de e-mail, ficando acessível, em caso de necessidade, em qualquer lugar, evitando transportar mais um papel);

- Sempre que possível, adequar o tipo de fibra da roupa que levamos à temperatura prevista nos locais por onde programamos passar;

- Ao viajar para África ou destinos mais remotos, as comunicações podem ser condicionadas. A Vodafone disponibiliza um serviço de telefone por satélite, sem custos que não as chamadas efectuadas e uma caução do aparelho. Se não for utilizado e o entregar intacto, não tem custos e ajuda saber que em caso de necessidade, no meio de um deserto ou de outro local sem qualquer rede GSM, existe à mão um telefone por satélite pronto a funcionar.


Check List (básico)


Vários:
Telemóvel
Chaves extra (guarda a pendura)
Kit reparação de furos
Kit ferramentas básico
Tubo de aquário para dar/ receber gasolina
Fita adesiva (fita americana)
Abraçadeiras de plástico
Manual da moto
Sacos interiores para as malas laterais
2 cadeados (c/combinação) para sacos interiores
GPS
Mapa (em papel)
Guia American Express, Michelin ou outro (dispensa levar mapa)
Sacos de plástico (para a roupa que formos usando, etc.)
Bloco de notas e caneta
Telemóvel + carregador
Canivete suíço
Lanterna (com pilhas novas)
Máquina fotográfica + carregador (ou baterias extra)
Calças convertíveis em calções (2 pares)
Meias (3 pares)
Boxers (3 pares)
Pólos, T-Shirts ou Sweat-Shirts (4)
Par de ténis/ vela ou outro (que ocupe pouco espaço)
Chinelos e calção de banho (Verão)
Óculos de sol
Mini-kit de costura (agulha e linhas)
Frasco pequeno (de plástico) com detergente roupa

SOS:
Betadine
Pensos rápidos
Baton cieiro (levar no casaco)
Protector solar
Pomada para queimaduras
Anti-pirético
Anti-histamínico
Anti-diarreico
Antiácido
Desinfectante (anti-séptico)
Solução de álcool em gel (lavagem de mãos)

Higiene pessoal:
Corta-unhas
Escova de dentes com dentífrico (kit viagem)
Escova cabelos
Sabonete pequeno
Champô
Desodorizante em creme

Documentos:
Cartão do cidadão/ bilhete de identidade ou passaporte
Carta de condução
Seguro (carta verde)
Documento único ou livrete e registo de propriedade
Cartões de débito (contas/ bancos diferentes)
Dinheiro para pequenas despesas correntes
Dinheiro SOS (100,00€)
Cópia dos documentos e cartões
Cartão Europeu de Seguro de Doença
Cartão plastificado com o grupo sanguíneo e contactos

Segurança e conforto:
Tampões para os ouvidos
Capacete
Passa-montanhas (viagens com previsão de frio)
Luvas *
Blusão com protecções *
Calças com protecções *
Botas com protecções *


* Garantir que são impermeáveis, especialmente se existir previsão de chuva


Parece muita coisa, mas não é. São apenas algumas dicas que devemos ter presentes e que podem ajudar, especialmente se as sistematizarmos. Uso-as sempre, procurando melhorar este procedimento a cada nova viagem, pois facilita muito, sobretudo quando vamos para locais mais distantes.


Se nos esquecermos de alguma coisa, podemos sempre comprar, em último recurso, ao longo do caminho, em países africanos ou no Médio Oriente a "coisa" pode não ser tão fácil!


Boas aventuras!!

2010/02/15

Viagem a Ronda e Gibraltar (2010-2-13/14)

Por: Jorge Lami Leal

Dia 1 – Viagem até Ronda

Com uns e-mails trocados nos dias anteriores, o percurso para Ronda foi decidido. Nada de rotas directas – não seriamos nós errantes.

A azáfama do dia anterior, a organização dos sacos de viagem, carregar as baterias dos gadgets, arrumar tudo no relativo pouco espaço que a moto dispõe para as “tralhas”, terminou numa noite mal dormida, devida à constipação que entretanto apanhei. Como gosto mais de viajar do que de estar doente, decidi controlar a segunda, permitindo-me prosseguir com a primeira. Assim foi!

O “dia 1” começou cedo e calmo. Seguimos de Faro para a Pastelaria Veneza, em Tavira, que ficara definida como ponto de encontro de mais uma aventura. Programáramos arrancar pouco depois das 9 horas… mas não conseguimos… entre a conversa que seguia solta e, depois, já com o nosso amigo Rogério, que nos “empresta” semanalmente a sua pastelaria para as nossas tertúlias, lá ficamos a comer e a conversar. Que boa maneira de começar o primeiro dia. Havia tempo, já que o grupo de Lisboa planeara sair pelas 9 horas, dando-nos umas horas a mais para um trajecto diferente.

O grupo que partiu do Sul, desta vez, era constituído apenas por dois casais em duas motos. Uma BMW R1200 RT e uma R1200 GS Adventure. Quatro amigos que já partilharam muitos quilómetros de estrada e de convívio, augurando uma viagem sem problemas. Não é essencial viajar com amigos. Mas é muito mais agradável, como se veio aliás a provar não só nesta viagem, como em todo o fim-de-semana.

Quando nos montamos em cima das motos, certamente já passavam das 10 horas. Mas as horas foram algo com que não nos preocupámos nestes dias. Que sorte!

Saímos de Tavira pela Via Infante de Sagres. Ao aproximar-me da Ponte do Guadiana, ainda a pouco quilómetros, reparei nos dois imponentes pilares do tabuleiro da ponte, que guardam a fronteira rodoviária mais a Sul de Portugal. Sobressaem na paisagem, ainda sem rio à vista, mas logo ali não pude deixar de pensar que estava quase a deixar o meu “al-Gharb al-Andaluz”.


Antes de sair de Portugal, uma fila de trânsito parada, algumas viaturas da “Guardia Civil” a entrar em Portugal, deixava perceber um acidente ou alguma acção policial. Não chegamos a perceber o que aconteceu, pois quando o trânsito retomou a normalidade, não vimos nem acidente, nem polícia. Pouco depois, numa das primeiras saídas, deixamos a Via do V Centenário, em direcção às antigas minas de Tharsis e respectivas curvas da “Sierra Tarse”. Interessava-nos particularmente evitar auto-estradas e vias rápidas, assim como passar por estradas andaluzas típicas… foi o que fizemos.

Alguns troços de estrada estão maus. Ou melhor, as estradas estão muito boas, apesar de certos troços, alguns com dezenas de quilómetros, que dão origem a fantásticos estradões de terra compacta, ideais para motos trail. Era o caso da moto dos meus companheiros de viagem, não era o caso da minha, mas… portou-se à altura e fez tudo sem se negar a nada. Apenas um ligeiro slide numa zona com lama (acho que não fui o único). Nada de especial, uma diminuição de acelerador e, assim que a roda traseira voltou a ter tracção, nova aceleração e continuamos.

Alguma lama que teimou “pintar” a minha RT


Alguns troços mais complicados

O fim dos estradões à vista






As minas de Tharsis, que remontam à pré-história, continuaram a ser exploradas com os fenícios, cartagineses, romanos. A exploração foi apenas interrompida nas ocupações godas e árabes. A exploração mineira regressa nos séculos XVIII e XIX. O século XX marca o fim da exploração mineira daquela zona. Ficaram no entanto os aterros, as lagoas, assim como inúmeras máquinas mineiras e de transporte, espalhadas pelas rotundas e beira de estrada, transformando-as num autêntico museu vivo e interpretativo do que foi aquela zona e a importância que teve para tantos povos ao longo de tantos séculos.







Dali seguimos até à Serra de Aracena. A estrada é emblemática, para andar de moto então é muito especial. Bom piso, melhores paisagens, que se transfiguram entre as bem tratadas (e intermináveis) explorações agrícolas, aos terrenos escarpados, com formações rochosas que emprestam à paisagem um encanto especial.



No sinal deveria ler-se em alternativa: “Curvas Muy Buenas”…


Não que fosse uma preocupação nossa, até porque viajamos sempre equipados para chuva e frio, mas a perspectiva de chuva era alguma, de acordo com os Sites de meteorologia. A nota dominante era a chuva e o céu nublado. Ao contrário disso, o “dia 1” revelou-se sem chuva, apesar do céu quase sempre nublado.

Numa das paragens, num semáforo, trocamos algumas palavras sobre o almoço. Ninguém tinha verdadeiramente fome, por isso continuamos. Foi só quando passamos Zufre que decidimos, ali mesmo na beira da estrada, que seria ali, naquela aldeia branca, plantada no meio das nuvens.

Zufre

Tinha feito numa outra pausa uma referência à falta de fortalezas, castelos e muralhas nesta parte da Andaluzia. Esta zona não era a fronteira com o mundo muçulmano (ou ameaçada pelas incursões portuguesas), mas seria expectável mais defesas. Não vimos. Até avistar Zufre. Esta pequena aldeia fica literalmente no céu, tal é a declive do serro onde foi construída. A subida é de tal forma íngreme, que impressiona.




Estacionamos na praça do “Ayunatamiento”, um edifício onde chegou a funcionar o tribunal da inquisição, bem ao lado da “Fuente del Consejo”.




A fonte por acaso até nos deu um bom conselho, já que subimos ao lado, a pé, por entre escadarias e ruelas com pouco mais de um metro de largura, que nos levaram a uma boa referência para almoçar. Uma tasca com aspecto de tasca, cheia de sonoros andaluzes. Lá dentro, nos fundos, passamos a uma segunda sala, já com menos aspecto de tasca, sem pessoas, mais calma. Espreitamos uma terceira sala, que nos revelou um acolhedor espaço, agradável, quente e com decorações recheadas de referências rurais. Escolhemos a mesa mais próxima da salamandra, que nos convidou ao esperado descanso e saboroso repasto.




A comida estava boa. Entre entradas variadas de azeitonas, queijo de cabra da região e presunto, seguiu-se uma omeleta de cogumelos. O que comer a seguir? A Andaluzia é rica na produção de “cerdo ibérico”, que melhor carne para degustar entre amigos, depois de tantas horas a andar de moto. Por sugestão da casa, comemos um dos pratos típicos de Zufre e do restaurante e um outro, que nos pareceu complementar toda aquela riqueza de paladares. Foi bem escolhido. Sobremesas e cafés e estávamos prontos para pagar a conta, que deu pouco mais de 10,00€ por pessoa. Esta é outra vantagem destas terras menos turísticas. Come-se muito bem por bem pouco!




Ainda fomos ver as vistas. Ao passar um cunhal de uma igreja, a base em “tijolo de burro” fez o Rui tecer uma reflexão sobre as técnicas de construção árabe e como estas estão na base da construção dos edifícios dos povos que lhes seguiram e como parte do nosso desenvolvimento se deve a isso. Zufre respira árabe. A Igreja da Puríssima Conceição (séc. XVI), por exemplo, como acontece com muitos dos nossos castelos e igrejas, foi construída em cima de um templo gótico mourisco, que por sua vez fora construída sobre uma mesquita, edificada durante a longa ocupação moura desta área da península ibérica. Uma nota interessante deste edifício foi ter requerido a reconstrução da torre sineira, em resultado do terramoto que destruiu parte do Algarve e Lisboa, em 1755.







As ruelas – autêntica mouraria – caiadas de branco alvo, estão cheias de vidas, que se cheiram ao passar por cada janela e cada porta. Algumas entreabertas, como que nos convidando a entrar e conviver.




Fico com a imagem de Zufre como uma espécie de farol, no meio do largo horizonte que se avista deste “pueblo”.







Com mais algumas dezenas de quilómetros rurais comprometidos com o pouco tempo de luz que tínhamos, seguimos directos a Sevilha e, dali, logo que nos foi possível, para estradas secundárias, que nos levariam até Ronda. Esta parte do trajecto é muito especial. O relevo, com planícies que se transfiguram em serrarias, para depois, no horizonte distante, avistarmos grandes penhascos, é gratificante. É uma das estradas (das que conheço) que mais gosto de fazer. É tão intensa quanto fácil. São muitas as curvas, mas o piso é tão bem feito, que o prazer de percorrer estes quilómetros não são condicionados por uma condução mais técnica e por isso necessariamente mais atenta. Cruzávamos a uma velocidade confortável, que permitia inspirar todos aqueles momentos e paisagens. Avistamos alguns “pueblos blancos”, ao longe, alguns onde já tinha ido mas, àquela distância, aquelas manchas brancas no meio do “mar” verde e castanho da terra é de facto algo que marca o viajante.



Rolamos com a chuva à nossa frente, sobretudo nas últimas dezenas de quilómetros antes de Ronda. O piso molhado indicava-nos isso mesmo, mas nunca chegamos a encontrá-la. De repente entramos num denso nevoeiro, que deu a atmosfera ideal para penetrarmos nesta parte da Andaluzia, onde o relevo se eleva ao mais alto nível do esplendor.

Quase a chegar a Ronda – que infelizmente não ficou registado por dificuldades técnicas nas duas máquinas fotográficas, uma ficou sem “memória” umas horas antes, outra sem bateria – um nevoeiro denso e serrado acompanhou-nos. Foi uma pena não termos conseguido registar a imagem das duas motos a circular por entre “nuvens”; merecia ter ficado para a posteridade. Ao menos ficou na memória.

Chegámos finalmente a Ronda, já a pouco tempo do lusco-fusco. Fomos para o hotel descansar um pouco e fazer tempo, já que o resto do grupo estava a cerca de 60 quilómetros de distância.

Pormenor (da clarabóia) no foier do hotel

Antes do jantar, já com quase todo o grupo reunido, demos um passeio higiénico por Ronda. Seguimos, por entre a temperatura quase negativa que se fazia sentir, até ao restaurante. Sem a preocupação da estrada, foi possível comer e beber bem. Quer em qualidade, quer na quantidade. A comida saborosa, o vinho bem escolhido, deste as várias entradas, até aos pratos principais, um primeiro de peixe e um segundo de carne, sem esquecer a sobremesa, tudo bem escolhido e retemperador das forças, para o dia que se avizinhava grande. No fim, o mentor e organizador deste passeio, José Matias, ainda "arranjou" umas castanhas em brandy, que já tinha comido, com outros amigos, também ali, no ano passado. Passou a meia-noite e as nossas penduras foram presenteadas com flores, cortesia do restaurante. Entretanto recebemos notícias que os nossos amigos Carlos e a Maria João vinham a caminho, directos de Lisboa; fomos para o lounge do hotel, onde passamos momentos muito divertidos, essencialmente a rir e a fazer rir. Quando chegaram, enregelados com o frio que passaram, tivemos tempos para os beijos e abraços da praxe e o grupo começou pouco depois a desmobilizar para os quartos, que já era bem tarde!


Dia 2 – de Ronda até Gibraltar
(ou um Dia dos Namorados diferente)












Antes do pequeno-almoço, tive tempo de espreitar as imponentes escarpas onde Ronda assenta. Bem lá no fundo, algum nevoeiro e uma forte corrente do rio despertam os sentidos. Quem já foi a Ronda não pode deixar de ficar assoberbado da forma como construíram a ponte que liga as duas partes desta cidade. É, no mínimo, assombroso olhar lá para baixo. Mais do que escrever… só as imagens anteriores mostram o que quero dizer.


Depois do pequeno-almoço, fomos buscar as motos à garagem do hotel e forçados pelas nossas “namoradas” a contornar a pé o quarteirão. Assim que chegamos novamente às motos… foi com surpresa que vimos os autocolantes em forma de coração, que entretanto colaram nas motos. Foi a surpresa delas para este Dia dos Namorados especial e diferente, ideia da Vera e trabalho de recorte dela e da Tita. Todas ajudaram a salpicar as motos com corações…



Seguimos logo depois, pela serraria de Ronda, até à costa Sul da Andaluzia, por entre montanhas muito especiais, devido à quase ausência de solo fértil nas escarpas, tornando a viagem mais árida e muito imponente, tal é a sucessão de curvas e contracurvas ladeadas de pedra de um lado, com o precipício do outro…








Uma paragem na base do castelo de Águila, onde é possível ver a ponta do rochedo – Gibraltar – assim como África.


Ao fundo Gibraltar e África

Uma nota de humor do Carlos Coelho, explicando as vantagens do saco à prova de água para papel higiénico




Lá chegamos a La Linea de La Concepcion, que faz fronteira com Gibraltar. Transpor a linha de fronteira é mesmo chegar ao Reino Unido. Os estilos arquitectónicos, e tudo o resto, respira inglês!


Fizemos o circuito turístico: a Ponta da Europa, para umas fotos de grupo; seguimos para o canhão de 100 toneladas, mas só aceitavam libras; dali até à Upper Rock, onde está uma reserva natural com os últimos macacos selvagens da Europa. Isso ou a desculpa para rentabilizar e cobrar algumas libras para visitarmos algumas das mais emblemáticas atracções turísticas deste território britânico. Ainda assim, vale bem a pena.



As motos no “Europa Point”



Começamos por “St. Michael’s Caves” (grutas de São Miguel). Impressionantes! Foram aproveitadas pelos ingleses como hospital em 1942, entretanto reconverteram uma grande nave de rocha em auditório, com uma acústica muito boa acrescente-se, eventualmente devido às estalactites e estalagmites, assim como pela “cova” de mais de 200 metros, que acreditavam os antigos descer até ao inferno!



Já tinha ido a Gibraltar outras vezes, mas acabei por nunca visitar os “macacos”. Sobre estes, tenho a dizer que são muito calmos. Ao contrário dos avisos, estiveram sempre observadores e até interagiram com algumas pessoas do grupo.




Algumas pessoas do grupo foram visitar os túneis, utilizados na Segunda Grande Guerra, já que Gibraltar era (e é) uma importante defesa militar, outros descansamos por ali, com os macacos a observarem-nos de perto.

Ali de cima, nunca deixo de pensar na facilidade que foi para os povos muçulmanos terem transposto os poucos quilómetros que separam os dois continentes. Está ali tão próximo, quase que podemos tocar África.

Descemos pouco depois, passando o castelo dos Mouros, que também ocuparam este rochedo em tempos idos!



Antes de sairmos de Gibraltar, a cancela do aeroporto fechou o troço de estrada que é parte integrante do aeroporto. Passou um bimotor a hélices e logo reabriu a estrada que nos levou a sair de terras do Império de Sua Majestade a Rainha Isabel II.


Já em La Linea de La Concepcion, almoçamos e o grupo seguiu para Ronda e eu e a minha pendura, para Faro. Com a noite a poucas horas de distância, fomos directos para Sevilha e dali até Faro. Depois de um fim-de-semana com pouco sol mas seco, fizemos a viagem por entre ventos fortes e chuva. Muita chuva. Como sempre, chegamos a casa com os corpos secos e muita vontade de partir novamente… com chuva ou sol, veremos para onde.

E um obrigado muito especial ao grupo, por estes agradáveis dois dias!!